segunda-feira, 5 de julho de 2010

Dia 29 - Bazamos ou ficamos?

Neste dia não acordamos, apenas nos levantamos, já que, com o frio e a ventania que se fez sentir durante a noite, pregar olho foi tarefa quase impossível.

Desmontamos a tenda, comemos o Weetabix com leite do costume, e arrancamos em direcção à cidade de Olgi. Chegados à cidade, parecia que estávamos a entrar numa cidade fantasma. Estava tudo fechado. Fomos procurar um banco para realizar câmbio de dinheiro. O banco também estava fechado. Segundo o guia Lonely Planet os bancos abriam às 8 e meia. Segundo as horas que os Kudu nos tinham dado eram já 9 horas. No entanto, por via das dúvidas alguém pergunta ao Mike “Kuduro” que horas eram. A resposta foi, sem dúvida, a piada mais hilariante da expedição: “Time is random around here!”. O nosso colega irlandês, directo e sem papas na língua perdeu a cabeça e entrou a pés juntos: “Fuck! It’s not random! It’s a fuckin’ timezone!”. Concluímos então que os marretas dos Kudus nos tinham acordado uma hora mais cedo do que necessário e que teríamos de esperar pela hora de abertura do banco.


Fomos então procurar o Ger Camp para nos acomodarmos e pousarmos a bagagem. A comitiva portuguesa ficou excelentemente bem acomodada num Ger com vista rio.






Preocupado com a fuga de óleo ocorrida na roda dianteira direita, Werner quis desmonta-la para verificar o que se passava. 


Concluiu que era um retentor que não estava em muito bom estado. 


Werner telefonou então a Delshan, um mongol de etnia cazaque, proprietário da Kazak Tours, empresa proprietária do Ger Camp em que iríamos pernoitar. Delshan conduziu-nos à única oficina especializada em Toyotas Land Cruisers entre Olgi e Ulan Bator (com 1000kms de caminho entre as 2 cidades). Lá, conseguimos adquirir o retentor de que necessitávamos, apesar de não haver peça Toyota, tinham lá peças da concorrência.
Ao introduzir o novo retentor, Werner reparou nas caixas de rolamentos superiores e inferiores da roda direita. Estavam desgastadas. Havia mesmo alguns rolamentos partidos. Voltamos à oficina para tentar comprar os rolamentos. Não havia! Werner estava muito apreensivo.






Numa reunião a três, Delshan sugeriu que a comitiva portuguesa aguardasse 3 dias pela chegada da peça de Ulan Bator e que, depois, prosseguisse viagem voando pelos planaltos mongóis até à capital. Werner disse que tinha medo que a caixa de rolamentos partisse no meio do caminho, provocando outros danos, em sítios onde era impossível arranjar peças, reboques ou assistência. Carlos afirmou que já tinha visto viaturas 4x4 na Madeira com caixas de rolamentos em muito pior estado e que continuavam a ir à serra. Sem querer tomar alguma posição antes de ouvir os seus companheiros de viagem, Carlos colocou a decisão de continuar ou ficar em “stand by” já que Pedro e Alexandra tinham ido ao centro da cidade.




No entretanto, no centro da cidade, Pedro, Alexandra e Jamie gozavam despreocupadamente o seu “dia de folga”….

Finalmente voltaram para o Ger Camp num táxi que certamente já teria tido melhores dias. O pára-brisas estava completamente estilhaçado e os fumos do tubo de escape perfumavam o habitáculo.

Foi nessa altura, quando Pedro e Alexandra voltaram ao Ger Camp que se realizou a pretendida assembleia geral da comitiva portuguesa. Após algumas intervenções, umas mais cautelosas e outras mais destemidas, decidiu-se por unanimidade prosseguir caminho cautelosamente tentando poupar ao máximo a mecânica do Adamastor, assumindo todos o risco de podermos vir a ficar parados mais à frente em zona onde o socorro seria mais difícil.

Carlos pediu então a Werner que intervalasse os rolamentos mais desgastados com outros que estavam em melhor estado. Werner sugeriu também que se trocassem de posição as duas caixas de rolamentos. A caixa de rolamentos inferior seria a que apanharia maior força de carga, por isso, a caixa de rolamentos em melhor estado foi colocada na parte de baixo. A caixa de rolamentos mais desgastada, quase destruída, foi passada para a parte de cima.


Um grupo de turistas que faziam percursos de cavalo entre o Cazaquistão e a Mongólia ia organizar, nessa noite, um jantar no Ger Restaurante. Convidaram o nosso grupo para partilhar com eles a refeição. O cozinheiro do grupo era de nacionalidade sul africana e preparou para essa noite um guisado de carne a que atribuíram um nome francês pomposo. Houve animação providenciada por elementos do próprio grupo com canções e um show de levitação. Fantástico!!!

Durante o dia filmamos uma curta metragem do processo de compra e venda de uma cabra.



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Dia 28 - Cow Parade!



(Xaninha feliz a regressar do espaço verde)



Rodeados de uma paisagem que nos enchia de paz, belíssima, mítica e encantadora, acordamos neste dia, mais cedo do que era desejável. Porquê? Porque a fronteira Mongol fecha durante a hora de almoço e queríamos passar a fronteira antes dessa altura. O acordar foi então às 5:45 da manhã. Ninguém toma pequeno-almoço sem antes desmontar a tenda. Pequeno-almoço às 6:15. Partida às 7 da matina.
Pelo caminho a paisagem ia lentamente mudando, deixando para trás as imponentes montanhas.
As estradas eram bastante movimentadas, tendo o Adamastor de fazer vários desvios e travagens para não embater nos bovinos transeuntes.

Chegados à fronteira, preparamo-nos psicologicamente para longas horas de espera. A fronteira russo-mongol está, graças a Deus, muito melhor equipada do que as fronteiras russo-cazaques. As fronteiras russo-cazaques não estavam providas de casas de banho. Devido aos tempos de espera longos nas fronteiras, havia sempre alguém com vontade de aliviar-se. Na ausência de casas de banho, tínhamos de aguentar até passar a fronteira (7 horas e meia) e então, aí sim, ir até ao matinho aliviar a bexiga. Na fronteira russo-mongol têm até 2 casas de banho separadas, encostadas uma à outra, onde podemos desfrutar de peep-show para a casa de banho do lado, tal como as fotos documentam.



Às 11 horas estávamos na fronteira alinhados à espera de ser atendidos. No primeiro ponto, o immigration check-in, estava um russo, de feições já bem típicas das montanhas de Altai, que escreveu num computador os nossos dados. Pormenor de classe é que o computador não estava ligado em rede. Ou seja, este é apenas um registo formal. As pessoas que nos vão receber no ponto seguinte da fronteira voltam a começar de novo do ponto zero.



Será certamente de interesse referir que no ponto seguinte de controle da fronteira fomos apenas admitidos às 17:45. ou seja, estivemos 6 horas e 45 pacientemente à espera. No entretanto, fomos aproveitando para conhecer outros viajantes  que também queriam transpor a fronteira:

- encontramos um grupo de 3 jovens americanos que tinham alugado uma carrinha Maz com condutor para os levar até à Mongólia.

- reencontramos os 3 andarilhos (1 francês, 2 austríacos) que tínhamos encontrado na vila anterior no café. Tinham finalmente decidido alugar um Jipe Maz com condutor para transpor a fronteira, visto que, transpor fronteiras à boleia se torna um pouco complicado.

- conhecemos também 2 famílias de polacos definitivamente fãs de todo o terreno que tinham os seus Nissans completamente apetrechados e preparados para o pior. Até uma dúzia de injectáveis de adrenalina tinham no seu frigorífico. Enfim… já diz o ditado português: “Quem vai para o mar, avia-se em terra!” Para os polacos esta viagem era uma festa, pareciam portugueses. Fizeram café para a malta, ofereciam sumos e água, mostraram-nos no mapa o belo percurso que iam fazer. Depois da Mongólia, iriam seguir para Magadan e depois voltar pela zona do Lago Baikal. Um trajecto de sonho! Iam demorar 4 meses segundo as melhores previsões.







- ainda falamos com um grupo de motards, sul-coreanos que vinham em sentido inverso. Vinham da Mongólia, iam passar pela Rússia, seguidamente Finlândia, depois Dinamarca e acabariam a viagem em beleza em Portugal. No fim desta viagem, transportariam as suas motorizadas de barco de volta para a Coreia do Sul.

(já desde o Cazaquistão que observamos esta posição peculiar de espera. Quer à espera do autocarro, quer a comer pevides, quer a fumar o cigarro, os cidadãos gostam de se colocar nesta posição cómoda (para eles!!!))

Após preenchermos 3 vezes os papéis de imigração, conseguimos finalmente acertar. No entanto, para entregar os papéis havia uma fila considerável, visto que, só existiam 2 guichets e 1 deles estava a ser utilizado para formação de uma jovem oficial russa que atraía a atenção de 3 dos seus superiores. Assim, apenas 1 oficial russo despachava efectivamente serviço no guichet do fundo. Os camionistas russos e mongóis, taxistas e ainda os utilizadores frequentes da fronteira quebravam a fila e passavam à frente. Uma atitude impunha-se. Assim, tivemos de chamar a atenção do oficial formador para o que se estava a passar. Arregalamos-lhe os olhos e dissemos “Niet”. Ele vociferou qualquer coisa que colocou em sentido os camionistas prevaricadores. Sentindo as costas quentes com as palavras proferidas pelo oficial, não hesitamos em acotovelar os camionistas que passado algum tempo voltavam a tentar furar a fila.
Conseguimos finalmente ter o documento de imigração carimbado para permitir a saída do Adamastor do território russo. Fomos então para a zona onde se trata da passagem de pessoas. Apresentamos os nossos passaportes e foi-nos oficialmente autorizada a saída do país.




Chegamos então ao último ponto de controle do lado russo da fronteira. Daquela porta para lá, atingíamos o objectivo de pisar solo mongol. Não seria bem assim, visto que entre as 2 fronteiras existem pelo menos 15 kms de “terra de ninguém”, ou seja, uma área onde nem estamos na Rússia, nem estamos na Mongólia. Foi neste limbo que fotografamos as primeiras marmotas. A estrada já era tipicamente mongol. Dissemos adeus ao alcatrão e olá à gravilha com buracos.









Ao chegar à fronteira mongol, fomos brutalmente enganados por um cambista. com a conivência passiva dos oficiais da fronteira mongol. Os 100 dólares que trocamos deveriam ser iguais a 136500 em moeda mongol, mas, apenas nos entregaram 86000. As motas passaram o primeiro ponto de controlo. Os 4x4 ficaram para trás. Logo de seguida, um oficial mongol ofereceu-se para nos trocar dólares a um rácio de 1 para 40. Dissemos não obrigado, que já tínhamos trocado. Ele ficou zangado e disse que a fronteira estava fechada, que só abriria no dia seguinte às 9 da manhã. Ficámos alarmados! Tentamos explicar que a comida estava nos 4x4 e que as pessoas das motas não teriam o que comer se nós não passássemos. Solução sugerida pelo ofical mongol: uma dádiva de 40 dólares engrandecer para o seu património pessoal. Regateamos para 30 dólares. Ele não aceitou. Pagamos os 40 dólares e passamos o primeiro posto da fronteira mongol. Sinceramente, esta situação não nos agradou. Estávamos a chegar à Mongólia, país conhecido pela sua abertura ao turismo, gente simpática e já éramos vítimas de extorsão. Como diz o ditado: “Maus princípios, bons acabamentos!” Já nos tinha dito o Gana no Cazaquistão que as piores pessoas que poderíamos encontrar no país eram os polícias e os oficiais fronteiriços. Confirmava-se também para a Mongólia.




(fuga de óleo na roda dianteira direita)



O objectivo para o dia era atingir a cidade de Olgi onde supostamente iríamos pernoitar num Ger Camp. Vários elementos estavam cansados. A organização demonstrou interesse em acampar nas montanhas apesar de sabermos estar a apenas 50 kms de Olgi. Não queriam conduzir nas estradas mongóis durante a noite. Tivemos de acatar. 


O sítio escolhido para o nosso primeiro acampamento mongol era tudo menos ameno. A noite caiu fria e foi difícil dormir com o vento a massajar as tendas durante toda a noite.



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domingo, 4 de julho de 2010

Dia 27 - Dólares? Sei lá o que são dólares. Só falo Português!

O acordar foi difícil depois de uma noite dormida à pressa. Para facilitar, tínhamos de passar de novo na maravilhosa cafetaria verde. Assim, solicitamos ao Mike “Kuduro” o waypoint onde seria previsto estar pela hora de almoço e dissemos-lhe que nos encontraríamos lá. Fomos então tomar calmamente o nosso café com panquecas à cafetaria verde. Perdemos algum tempo.

Chegados ao Adamastor, tivemos de arrumar o seu interior e os seus conteúdos para que se tornasse habitável. Isto também nos consumiu tempo.

Ao sair da cidade, como boas "gajas" que são, a Natália e a Gina desentenderam-se. Uma dizia que era por um lado, outra dizia que era no sentido contrário… enfim, fomos seguindo a mais velha (Gina), porque a idade ainda é um posto. Indo pelo caminho que era indicado pela Gina encontramos trânsito intenso devido a uma procissão que estavam a realizar ocupando toda a largura de uma avenida com 3 faixas. Meus amigos da Igreja Ortodoxa Russa, sabemos que é Domigo, sabemos que as procissões são eventos sociais interessantes, no entanto, 2 faixas seriam perfeitamente suficientes para vós. Além disso, há quem tenha outros afazeres na vida: ir entregar uma botija de gás à casa da mãe, levar uma parturiente ao hospital, militares que vão para manobras, portugueses em expedição, etc. Respeitamos a vossa procissão, aguardando que nos anos que aí vêm, permitam que se mantenha a fluidez do trânsito, impedindo que se perca mais de 90 minutos a andar a passo de caracol atrás da procissão. No fim de contas, quem tinha razão era Natália (Borat sister!). Invertemos a marcha e atravessamos o rio em direcção a Sul.

Deixando para trás a cidade de Barnaul, na tentativa de recuperar o tempo perdido, aceleramos o coração ao Adamastor. Numa via que se parecia com uma via rápida, com 2 faixas para cada lado separadas por um separador central, íamos alegremente a 130 quando avistamos um polícia magrinho e loiro a solicitar-nos que encostássemos. Pois é, apesar das excelentes condições da estrada, os limites na Rússia mantinham-se nos 90 kms hora. Aula prática da lição aprendida há 2 dias atrás: fazermo-nos passar por turistas portugueses que apenas falam português, são engraçados, fazem muitos gestos, falam muito entre si e que tentam aplicar a técnica de falar português cada vez mais alto para ver se os russos os entendem. Não esquecer a necessária ausência de riso ou gozo. Manter a seriedade é uma exigência. Os polícias tentaram de tudo: ameaçaram com cadeia, apontavam para a velocidade registada e mostravam-nos o limite de velocidade, faziam cara de espanto, pegavam nos documentos para começar a passar a multa, aguardavam pacientemente para ver se nos chegávamos à frente com suborno. Enfim, podemos dizer que eles fizeram o melhor que podiam. Nós também fomos fazendo o melhor que podíamos, fazendo papel de burros completos, asnos perfeitos. Um ET, caído aos trambolhões de um OVNI, teria percebido que os polícias queriam uma oferenda monetária. Nós não! Mantivemos a nossa compostura até que o mesmo guarda que nos tinha mandado parar nos acompanhou à viatura, entregou-nos os nossos documentos e desejou boa viagem. Com esta brincadeira toda, acabamos por perder mais 45 minutos.

Apesar de todos estes atrasos, lá fomos chegando à região russa de Altai. Esta zona da Rússia é espiritualmente mais semelhante à Mongólia, apesar de todas as pessoas falarem russo, as vestes e os rostos já anunciam que estamos em zona de fronteira.
A região de Altai é uma zona de atracção turística para os Russos, quer pelas suas estâncias de desportos de inverno, quer pela agradável paisagem de montanha que poderá ser palco de muitos passeios e pic-nics.
 
(Carrinha Maz 4x4 com guincho Warn e pneus BF Goodrich Mud Terrain junto a mercadinhos de recordações para turistas na região de Altai.)

Barnaul - Wild Camp na região Russa de Altai

Kms percorridos no Dia 27 – 507 km

Kms acumulados da viagem – 10793 km

Dia 26 - Barnaul vê-se em 30 minutos

Embora comece a ser familiar, o sistema de torneira de lavatório incorporado na do chuveiro é ainda estranho pelas manhãs!! Depois de banho mais demorado (com meninas na viagem já se sabe…!!) fomos encontrar uma “guia” arranjada através do site de couchsurfing – Making a better world, one couch at a time. Liana de seu nome, natural de Barnaul, fotógrafa de casamentos e afiliada na comunidade “internética” Couchsurfing.


Era o nosso dia de descanso em Barnaul, tínhamos finalmente tempo para vistiar a cidade. Liana avisou-nos logo à partida que Barnaul era uma cidade industrial e que não existiria muito para ver. Do ponto de vista gastronómico, a visita à cidade começou muito bem numa cafetaria verde na rua paralela à do hotel Barnaul. Um expresso como mandam as regras e umas panquecas vinham iriam alimentar-nos para podermos calcorrear Barnaul. O expresso era lindo, cremoso, sabia a café. Espetacular!! Parecia que estávamos a tomar café em Portugal. O fantástico de afastarmo-nos temporariamente de algo de que gostamos muito é sentir, no regresso, que gostamos ainda mais, que gostamos de forma diferente, porque já vivenciamos a falta que essa coisa (ou pessoa) nos faz.

Seguimos para o centro da cidade, passando por uma cervejaria bonita e bem arranjada onde não entramos, mas da qual marcamos um waypoint especial no nosso GPS mental. Sabíamos que íamos voltar àquela cervejaria.


Adiante, entramos numa igreja ortodoxa russa onde existia uma imagem de São Cosme ao qual acendemos uma vela para que nos protegesse das maleitas de viajante durante o resto desta aventura.


Passamos pela estátua do Lenine desta cidade, pela câmara, pelo governo regional de Barnaul, pelo campus universitário da cidade.


Dirigimo-nos à beira do rio, castanho, mas com um solinho muito agradável. Foi à beira desse rio que a nossa “guia” nos afirmou mais uma vez que já tínhamos visto tudo o que a cidade tinha para oferecer.

De regresso ao hotel, fomos entrando em todas as lojas de electrodomésticos à procura de um fogão a gás que pudéssemos utilizar no resto da nossa viagem. Após algumas tentativas frustradas, decidimos ir almoçar a uma cantina russa. Boa comida, boas saladas e um preço muito, muito amigável. Mais uma dica, se estiverem numa cidade russa e quiserem comer algo rápido a um preço razoável, não entrem num restaurante, mas sim nestas cantinas de self-service. A comida russa parece ser feita com produtos orgânicos, ou seja, tomates verdadeiros, galinhas verdadeiras, etc. Por isso é que tem sempre sabor de comida caseira.

A nossa “guia” levou-nos então pelas entranhas da cidade de Barnaul, através de bairros degradados onde vivem os verdadeiros habitantes de Barnaul. Quando demos por ela, estávamos dentro de uma loja especializada em campismo do tamanho de um Modelo Bonjour. Espetacular. Tudo o que era necessário para campismo estava lá. Compramos o nosso fogão após uma explicação técnica detalhada dada em russo pelo vendedor que se podia ver ao longe era apaixonado pelo que fazia. Pena que não entendíamos uma palavra daquilo que dizia. Mostrou-nos 3 sistemas diferentes e elencou as virtudes e desvantagens de cada um destes sistemas. Um luxo. No contacto com qualquer profissão, é óptimo falar com alguém que percebe do assunto. Sentimos que estávamos a falar com um especialistas. Ficamos mesmo tristes de não poder retorquir em russo para ver se ele continuava firme na sua argumentação. O "fogão" e botijas adquiridos vieram a demonstrar-se muito úteis no resto da viagem para podermos ser autónomos a nível de alimentação quente.

Rumamos ao hotel onde a nossa “guia” nos abandonou cansada e com os pés todos rebentados (ninguém manda usar sapatos de sola seca para andar pela cidade). Posteriormente uma mensagem recebida pelo couchsurfing dava conta de que mesmo depois de ter dormido um bocado durante a tarde, as pernas e os pés ainda lhe doíam.

Os tugas, apesar de terem muitos kilómetros nas costas dentro do Adamastor e alguns nas pernas feitos na cidade, não estavam cansados. É preciso muito mais para cansar um português. Então, surge no ideal do grupo o waypoint da cervejaria pela qual tínhamos passado de manhã. Rota traçada, destino atingido, jantar pedido e cerveja na mesa.

Aguardávamos ansiosamente a chegada do grupo do Kudu. Assim que chegaram, demos-lhes também o waypoint da cervejaria para que se juntassem a nós. O grupo estava junto de novo. Depois do que nos tinha acontecido em Aktobe e do acidente do Steve, estávamos todos à mesma mesa. Em jeito de comemoração, cada elemento foi pedindo cerveja e comida para dividir. Fabuloso.

Eram já 4 da matina quando fomos dormir, sendo que, somos obrigados a referir que o único elemento que aguentou tanto tempo acordado como os portugueses foi Werner o mecânico da expedição.

Barnaul - Barnaul
Kms percorridos no Dia 26 – 0 km de carro

Kms acumulados da viagem – 10286 km

sábado, 3 de julho de 2010

Dia 25 – Técnicas de dissimulação

Com a cidade de Barnaul como objectivo, cientes de que lá voltaríamos a encontrar o resto do grupo, saímos do Ibis de Omsk com vontade de fazer kilómetros. Foram muitos neste dia e de alguma dificuldade. Muitas obras na estrada, muitos camiões e muitos condutores agressivos russos. Já a hora de almoço tinha passado, quando pelas 14 horas desviamos a nossa rota 4 kms para ir almoçar a uma aldeia pequena no meio da Rússia. Notava-se que a aldeia era pobre. Casas em madeira, ruas em terra, imóveis degradados. No entanto, a cantina da aldeia revelou-se uma surpresa. Apesar de já terem as cadeiras em cima das mesas quando chegamos, de já terem limpo o chão, receberam-nos sorridentes e com vontade de nos ajudar e alimentar.

A sopa era um caldo de galinha com arroz com mais gordura do que o normal, mas, muito, muito gostoso.

De seguida o “Gulaz” (Goulash) foi brilhante. Sabia a comida caseira e saudável.

A nossa escolha de sobremesa revelou-se errada. Pensamos que tínhamos escolhido algo tipo filhós ou rabanadas, mas afinal tratavam-se de pataniscas de carne.

Comemos tudo, bebemos o nosso copo de sumo e fomos pagar. Surpreendidos, pagamos os 278,48 rublos que nos solicitaram por tão gostosa refeição. Quase 5 euros por um almoço para 3 pessoas! Ficamos fãs da cantina. É pena ficar tão fora de mão!


Conduzindo em direcção a Barnaul havia uma porção de estrada com 3 faixas. No entanto, de repente, essas 3 faixas passam apenas a 1. Visto que é fisicamente impossível 2 carros ocuparem o mesmo espaço sem se danificarem, o Adamastor teve de se desviar pisando uma linha contínua. Claro que num local tão especial como este, em que 3 faixas passam a 1 estavam lá os nossos amigos polícias com uma camarazita para fazer-nos recordar este momento Kodak. Utilizando a técnica de fingir não perceber o que eles diziam, visto que eles não falavam inglês, passados uns 15 minutos fomos mandados embora. Ao início, o polícia ameaçara com 4 meses de suspensão de carta. No final, perguntou para onde íamos e desejou boa viagem. São tão carentes de atenção estes polícias russos...

Lição de vida aprendida: Sempre que sejam parados por polícias russos, finjam que são burros, que falam apenas português e sorriam muito. Sejam divertidos, façam muitos gestos. Eles gostam disso. Mas nunca, nunca riam deles ou tentem compreender o que quer que seja que eles vos digam.

Chegados a Barnaul, fomos instalar-nos no remodelado Hotel Barnaul. O Pedro ficou de mau humor com a falta de delicadeza da recepcionista e esteve prestes a ocorrer um incidente diplomático. No entanto, graças à intervenção sensata do mais ponderado elemento do grupo, o bom senso e a calma prevaleceram.

Já era tarde e tínhamos fome. Perguntamos à recepcionista se o restaurante ainda nos serviria algo quente. Ela respondeu que no 5º andar existia um restaurante aberto 24 horas. Ficamos felizes até lá chegarmos. O “restaurante” de que ela falava era na verdade uma cantina com 3 mesas onde os camionistas e junkies hospedados no hotel iam buscar a comida para levar para os quartos. Nós não íamos levar nada para os quartos. O menu estava em russo. Começamos a apontar, a fazer gestos e a tentar perceber qual dos números era o preço e qual era o peso da dose. Finalmente conseguimos pedir algo que nos saciou ligeiramente a fome para que pudéssemos dormir até ao outro dia.

Antes de dormir, voltamos a perguntar à recepção a que horas abria o pequeno almoço. Responderam-nos que o pequeno almoço era também no “restaurante” 24 horas do 5º andar e que não estava incluído nos 1400 rublos que tínhamos pago. Decidimos imediatamente que passaríamos bem sem o pequeno almoço na cantina.


Omsk - Barnaul
Kms percorridos no Dia 25 – 823 km

Kms acumulados da viagem – 10286 km